MIXEDBYRAFA
Análise técnica da sessão

Ver The Odyssey no IMAX do MAR Shopping

Por MIXEDBYRAFA · Cinema e som · Leitura de 5 min

Sobre esta análise. Não é uma crítica de cinema no sentido habitual. Não há resumo de enredo, leitura de personagens nem discussão de argumento.

O que interessa aqui é a experiência, e sobretudo a parte técnica dela: em que formato o filme foi rodado e misturado, que projetor e que sistema de som a sala tem, e o que sobra dessa cadeia quando o filme chega ao ecrã. O trabalho de som e de imagem entra como matéria de análise, não como opinião sobre a obra.

Filme
10/10
Sem margem para dúvidas
Sala IMAX · MAR Shopping
Fica muito aquém
Projeção desatualizada
O som

Sound design

O sound design é soberbo. O trabalho de Richard King e Ludwig Göransson virou arte. Dá para perceber que os dois já trabalham praticamente em simbiose, algo que já estava muito presente em Oppenheimer.

A mistura

Somos presenteados com uma mistura muito típica de Nolan. As vozes estão enterradas numa paisagem sonora super realista e muito presente, quase em cima de quem está a ver o filme.

O único ponto negativo são mesmo os diálogos, e não por estarem baixos. Já sabemos que é uma mistura realista, onde explosões e efeitos obviamente se sobrepõem às vozes. O problema é que se nota claramente alguma falta de definição nos agudos: os diálogos soam demasiado carregados nos médios.

Suponho que possa ter sido uma opção de processamento para esconder um pouco mais o barulho das câmaras IMAX durante a rodagem.
A imagem

Fotografia

A fotografia é algo como nunca tinha visto no cinema. O trabalho de Hoyte van Hoytema é fenomenal: desde os enquadramentos à paleta de cores, toda a decisão artística é incrível.

Também é de louvar o trabalho do focus puller neste formato. A profundidade de campo é extremamente reduzida e a decisão sobre o que está focado em cada momento é simplesmente genial.

Em suma, um filme perfeito.

A ovelha negra

A sala

Mas agora chegamos à ovelha negra, que não pode ficar escondida. A sala IMAX do MAR Shopping apresenta uma tecnologia de projeção bastante desatualizada. O som salva-se por completo, a imagem é que não.

Projeção

A sala conta com IMAX DIGITAL, ou seja, um sistema de duplo projetor Xenon de 2K cada. É a geração anterior à linha de projetores laser da IMAX, e já mostra claramente a idade.

O detalhe que torna isto difícil de engolir: nos complexos NOS, as salas normais foram entretanto convertidas para projeção laser 4K. A sala IMAX ficou para trás. Por outras palavras, paga-se mais pelo bilhete para ver uma imagem tecnicamente inferior à de uma XLVision do mesmo cinema, e a diferença é bastante evidente para quem está habituado a 4K.

Os dois últimos pontos apontam para o mesmo sítio. Num sistema de duplo projetor as duas imagens são sobrepostas, e qualquer erro de convergência aparece como franjas de cor e perda de definição. Nota-se sobretudo em elementos finos e de alto contraste, que é exatamente o caso das legendas.

Há ainda uma questão de enquadramento. The Odyssey é o primeiro filme rodado integralmente com câmaras de película IMAX, com o fotograma completo em 1.43:1. Esse rácio só se vê em IMAX 70mm e em salas IMAX com duplo projetor laser. Em IMAX digital, como esta, o filme é apresentado em 1.90:1, o que corta topo e base do fotograma original.

E o que existe do outro lado

Para se perceber a distância, basta olhar para Lisboa. A sala IMAX do Colombo recebeu o primeiro IMAX with Laser do país: duplo projetor laser 4K e sistema de som imersivo de 12 canais, com canais laterais e superiores. É outro patamar de equipamento, não uma variação do mesmo.

Atenção à confusão fácil. O 4K laser de uma sala IMAX não é o mesmo 4K laser de uma sala normal. No IMAX with Laser trata-se de um sistema desenhado de raiz para ecrãs IMAX, com motor ótico e lentes próprias, mais brilho, mais contraste e gama de cor mais ampla, além dos 12 canais de som. Uma sala convencional com projetor laser 4K, por muito boa que seja, não entrega a mesma imagem nem a mesma cadeia de áudio.

Vale a pena notar que nem todos os sistemas laser da IMAX são iguais: os de duplo projetor conseguem chegar ao rácio completo de 1.43:1, enquanto os de projetor único ficam limitados a 1.90:1, tal como o Xenon 2K de Matosinhos.

Áudio

Aqui não há absolutamente nada a apontar, e convém explicar porquê. The Odyssey não tem mistura em Atmos nem em qualquer formato baseado em objetos. O filme foi trabalhado em 5.1, com uma variante IMAX 5.0 preparada para as configurações de canais próprias das salas IMAX.

Isto é coerente com a forma como Nolan sempre trabalhou: uma única mistura, feita para soar igual em qualquer sala. Mesmo os DCP destinados a salas premium, incluindo Dolby Cinema, saem masterizados em 5.1, precisamente para que a intenção artística não mude de auditório para auditório. Nas salas IMAX a reprodução é feita por uma cadeia multicanal não comprimida, e as salas IMAX with Laser mais recentes têm 12 canais, incluindo laterais e superiores. Só que o que chega a esses sistemas continua a ser a mistura do filme, e essa não tem informação de altura para distribuir.

Ou seja, a sala do MAR Shopping é surround 5.x e o filme é 5.1. O formato da sala corresponde exatamente àquilo que a mistura tem para dar, não falta canal nenhum, e a ausência de canais de altura não retira nada a esta sessão.

Somando a isso um sistema muito bem afinado, com resposta equilibrada, surrounds bem integrados e subgrave com peso a sério, o som da sessão foi soberbo.

Ficha da sessão
ItemDetalhe
RealizaçãoChristopher Nolan
Direção de fotografiaHoyte van Hoytema
Desenho de somRichard King
Banda sonoraLudwig Göransson
SalaIMAX · MAR Shopping
ProjeçãoIMAX Digital, duplo Xenon 2K
Rácio exibido1.90:1 (original 1.43:1)
Mistura do filme5.1 (variante IMAX 5.0)
Áudio da salaSurround 5.x, bem afinado
Veredicto

No final, fica uma sensação dividida. O som cumpriu tudo o que havia a cumprir, mas a projeção não está à altura daquilo que Nolan e toda a equipa criaram.

10/10 para o filme. A sala IMAX do MAR Shopping fica muito aquém na imagem, ainda que o som esteja irrepreensível.

The Odyssey merece ser visto numa experiência IMAX à altura.

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