Sobre esta análise. Não é uma crítica de cinema no sentido habitual. Não há resumo de enredo, leitura de personagens nem discussão de argumento.
O que interessa aqui é a experiência, e sobretudo a parte técnica dela: em que formato o filme foi rodado e misturado, que projetor e que sistema de som a sala tem, e o que sobra dessa cadeia quando o filme chega ao ecrã. O trabalho de som e de imagem entra como matéria de análise, não como opinião sobre a obra.
Sound design
O sound design é soberbo. O trabalho de Richard King e Ludwig Göransson virou arte. Dá para perceber que os dois já trabalham praticamente em simbiose, algo que já estava muito presente em Oppenheimer.
A mistura
Somos presenteados com uma mistura muito típica de Nolan. As vozes estão enterradas numa paisagem sonora super realista e muito presente, quase em cima de quem está a ver o filme.
O único ponto negativo são mesmo os diálogos, e não por estarem baixos. Já sabemos que é uma mistura realista, onde explosões e efeitos obviamente se sobrepõem às vozes. O problema é que se nota claramente alguma falta de definição nos agudos: os diálogos soam demasiado carregados nos médios.
Fotografia
A fotografia é algo como nunca tinha visto no cinema. O trabalho de Hoyte van Hoytema é fenomenal: desde os enquadramentos à paleta de cores, toda a decisão artística é incrível.
Também é de louvar o trabalho do focus puller neste formato. A profundidade de campo é extremamente reduzida e a decisão sobre o que está focado em cada momento é simplesmente genial.
Em suma, um filme perfeito.
A sala
Mas agora chegamos à ovelha negra, que não pode ficar escondida. A sala IMAX do MAR Shopping apresenta uma tecnologia de projeção bastante desatualizada. O som salva-se por completo, a imagem é que não.
Projeção
A sala conta com IMAX DIGITAL, ou seja, um sistema de duplo projetor Xenon de 2K cada. É a geração anterior à linha de projetores laser da IMAX, e já mostra claramente a idade.
O detalhe que torna isto difícil de engolir: nos complexos NOS, as salas normais foram entretanto convertidas para projeção laser 4K. A sala IMAX ficou para trás. Por outras palavras, paga-se mais pelo bilhete para ver uma imagem tecnicamente inferior à de uma XLVision do mesmo cinema, e a diferença é bastante evidente para quem está habituado a 4K.
- Pretos azulados
- Falta de nitidez na imagem
- Bastante banding
- Desvio cromático muito notável
- Legendas visivelmente fora de foco, e eu nem costumo olhar para elas
Os dois últimos pontos apontam para o mesmo sítio. Num sistema de duplo projetor as duas imagens são sobrepostas, e qualquer erro de convergência aparece como franjas de cor e perda de definição. Nota-se sobretudo em elementos finos e de alto contraste, que é exatamente o caso das legendas.
E o que existe do outro lado
Para se perceber a distância, basta olhar para Lisboa. A sala IMAX do Colombo recebeu o primeiro IMAX with Laser do país: duplo projetor laser 4K e sistema de som imersivo de 12 canais, com canais laterais e superiores. É outro patamar de equipamento, não uma variação do mesmo.
Vale a pena notar que nem todos os sistemas laser da IMAX são iguais: os de duplo projetor conseguem chegar ao rácio completo de 1.43:1, enquanto os de projetor único ficam limitados a 1.90:1, tal como o Xenon 2K de Matosinhos.
Áudio
Aqui não há absolutamente nada a apontar, e convém explicar porquê. The Odyssey não tem mistura em Atmos nem em qualquer formato baseado em objetos. O filme foi trabalhado em 5.1, com uma variante IMAX 5.0 preparada para as configurações de canais próprias das salas IMAX.
Isto é coerente com a forma como Nolan sempre trabalhou: uma única mistura, feita para soar igual em qualquer sala. Mesmo os DCP destinados a salas premium, incluindo Dolby Cinema, saem masterizados em 5.1, precisamente para que a intenção artística não mude de auditório para auditório. Nas salas IMAX a reprodução é feita por uma cadeia multicanal não comprimida, e as salas IMAX with Laser mais recentes têm 12 canais, incluindo laterais e superiores. Só que o que chega a esses sistemas continua a ser a mistura do filme, e essa não tem informação de altura para distribuir.
Ou seja, a sala do MAR Shopping é surround 5.x e o filme é 5.1. O formato da sala corresponde exatamente àquilo que a mistura tem para dar, não falta canal nenhum, e a ausência de canais de altura não retira nada a esta sessão.
Somando a isso um sistema muito bem afinado, com resposta equilibrada, surrounds bem integrados e subgrave com peso a sério, o som da sessão foi soberbo.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Realização | Christopher Nolan |
| Direção de fotografia | Hoyte van Hoytema |
| Desenho de som | Richard King |
| Banda sonora | Ludwig Göransson |
| Sala | IMAX · MAR Shopping |
| Projeção | IMAX Digital, duplo Xenon 2K |
| Rácio exibido | 1.90:1 (original 1.43:1) |
| Mistura do filme | 5.1 (variante IMAX 5.0) |
| Áudio da sala | Surround 5.x, bem afinado |
No final, fica uma sensação dividida. O som cumpriu tudo o que havia a cumprir, mas a projeção não está à altura daquilo que Nolan e toda a equipa criaram.
10/10 para o filme. A sala IMAX do MAR Shopping fica muito aquém na imagem, ainda que o som esteja irrepreensível.
The Odyssey merece ser visto numa experiência IMAX à altura.
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